bruxadomangue

the writings of a brazilian witch

houve alguma vez uma chance, eu sei de sentir e amar algo que não fosse mas se pudesse escolher o certo, eu sei escolheria qualquer outra coisa mais fraca

a segurança iludiu a muitos, eu sei iludiu a mim fingindo ser felicidade mas se o risco me encontrasse hoje, eu sei eu me iludiria outra maldita vez

há um quê de desespero aqui, eu sei e que outra coisa pode-se sentir agora? a morte é a vida, e a doença, eu sei a doença não cura qualquer coisa

não existo além de mim mesma, eu sei e se existisse, ainda assim, seria um nada mas se eu pudesse escolher, eu sei escolheria algo que nem eu sei dizer

??/??/2020

“bruxa do mangue is lynn, and lynn is bruxa do mangue”

meus pés nunca puderam verdadeiramente caminhar sozinhos proibida de andar por meu caminho forçada a seguir os que antes vieram

e agora, descalça, eu saio sozinha e meus pés, frágeis, sangram livres ao contrário de mim, são tristes os que quiseram me proibir a vida

e a dor que eu sinto vale mais, sim que o nada a que fui, antes, forçada a sentir enquanto presa em uma casa e incapaz de respirar, sangrar, enfim

livre; calma, jamais. livre; calma, jamais. livre; calma, jamais. livre; calma, jamais.

??/??/2020

“bruxa do mangue is lynn, and lynn is bruxa do mangue”

i like writing about death i write of dying in many ways i haven't written of all deaths but i surely will some day and in my heart i do hope that if i should ever die someone will comb my works not resting until they find a death like my very own so they'll say “see?! she knew!” and from eternity i will laugh once i get to see this view like the monkeys at the typewriters it's easy to predict your death when of infinite deaths you write predicting even everyone else's

november 11, 2025

“bruxa do mangue is lynn, and lynn is bruxa do mangue”

eram duas da manhã quando tudo aconteceu. eu tinha dormido na frente da tv, quase afundada no sofá, e estava completamente sozinha em casa. o que quer que estivesse passando na TV subitamente foi interrompido por uma sirene estridente, que quase me fez cair no chão. xingando, procurei o controle pra desligar a tv quando vi a mensagem na tela.

FIQUE EM CASA ATÉ SEGUNDA ORDEM. NÃO SAIA NEM OLHE PARA FORA. SUA SEGURANÇA DEPENDE DISSO AGORA.

eu encarei aquela mensagem por um bom tempo. a princípio, achei que fosse algum tipo de erro ou mesmo uma invasão de sinal, mas não demorou muito pra ver a mesma mensagem, palavra por palavra, em todos os outros canais.

extremamente confusa, peguei meu telefone, tentando encontrar algo na internet que explicasse aquela confusão toda. ao invés disso, fui recebida por um alerta oficial me dizendo basicamente a mesma coisa, e eu não conseguia acessar nenhum site que fosse. numa última busca por respostas, liguei um rádio, mas todas as estações que consegui sintonizar estavam transmitindo apenas uma voz robótica que lia uma mensagem semelhante.

eu não sabia o que pensar. parte de mim estava com medo e disposta a se esconder embaixo da cama se fosse ajudar, mas outra parte – a maldita curiosidade – queria abrir as cortinas do apartamento e ver o que diabos estava acontecendo lá fora. eu queria respostas, mas não sabia onde encontrá-las.

andei pela sala tentando me acalmar, mas parecia que só complicava mais. estava quase decidindo abrir as cortinas quando ouvi gritos no apartamento de cima... e em seguida, o som de uma pequena explosão. meu sangue gelou.

“eles abriram a janela”, foi a primeira coisa que pensei. “tenho certeza que ouvi a janela abrindo... mas o que foi que entrou por ela?” não estava disposta a descobrir. a mensagem na TV continuava a mesma, e eu, completamente ansiosa.

então ouvi um estouro, e lentamente tudo escureceu. a queda de energia veio acompanhada de uma gritaria insuportável na rua, como se todas as pessoas possíveis tivessem pegado fogo ao mesmo tempo – adultos, velhos, crianças, todos. um leve brilho vermelho era visível pela cortina, e os gritos ecoavam pela madrugada, gelando minha espinha. tamanho era meu nervosismo naquele momento que ouvir meu telefone tocando quase me fez infartar. era minha irmã.

“o que houve?!”

“eu vim te visitar.”

“agora?!”

“eu fui assaltada, preciso de ajuda.”

“ei ei ei, peraí, como que você saiu de casa no meio dessa confusão toda?!”

“que confusão? você deve ter sonhado.”

“não, eu tenho certeza! a televisão, o rádio e meu telefone tavam mostrando alertas de segurança e eu ouvi o maior pandemônio na rua agora pouco!”

uma risada “não, com certeza foi sonho. eu tô aqui na frente do seu prédio e a rua tá completamente deserta, só olhar pela janela que cê vai me ver.”

eu estava quase convencida e comecei a andar na direção da janela, quando me lembrei de algo.

“você foi assaltada, então?”

“isso.”

“e veio a pé dos estados unidos até aqui pra me pedir ajuda? porque três horas atrás eu vi você postando fotos das suas férias lá.”

silêncio. quem o que quer que fosse, desligou o telefone.

não sem dificuldade, arrastei alguns móveis pra frente de minha porta. em seguida, arrastei outros móveis pra frente das janelas. não demorou muito pra toda minha mobília virar uma barreira protetora, pra impedir a entrada de alguma coisa, fosse o que fosse. sentei no tapete e esperei; certamente aquilo acabaria em algum momento.

ao invés disso, novos gritos ecoavam lá fora. agora, vinham acompanhados de trovoadas e de uma chuva forte. não conseguia sair de onde estava, e respirava com enorme dificuldade.

“isso vai acabar... isso vai acabar... isso vai acabar...”

pelas frestas de minha janela, o fedor de carne queimando entrou com tudo e quase me fez vomitar; isso bastou pra que eu conseguisse sair dali e me arrastasse pelo chão, em busca de algum cômodo seguro.

“isso vai acabar... isso vai acabar... isso vai acabar...”

outros gritos, acompanhados dos sons de trovões e outras explosões. a essa altura eu tentava entender se todos aqueles sons vinham mesmo lá de fora ou se estavam ecoando na minha cabeça por conta própria.

“isso vai acabar... isso vai acabar... isso vai acabar...”

me escondi dentro do armário de meu quarto e fechei a porta. não foi a melhor das escolhas – minha respiração piorou na mesma hora – mas era o único lugar onde, ainda assim, podia me sentir minimamente segura.

“isso vai acabar... isso vai acabar... isso vai acabar...”

não conseguia mais me convencer com esse mantra. me encolhi como pude no armário, cobri os ouvidos com as mãos, e fechei os olhos, esperando por alguma coisa diferente, mas o caos continuava na rua. comecei a contar em voz alta, tentando me acalmar com isso de alguma forma, e quando cheguei em 100, não me lembro de chegar em 101.

quando abri os olhos de novo, estava esparramada no chão do quarto e com minhas pernas dentro do armário. com uma enorme dificuldade, me levantei – tudo doía. me arrastei pra sala novamente, e qual não foi minha surpresa de perceber que o dia havia clareado outra vez. a energia tinha retornado, e meus móveis não estavam mais empilhados na frente de todas as entradas.

mas a televisão continuava repetindo a mensagem da noite anterior. o rádio também.

como em um transe, andei na direção da janela. fechei os olhos.

abri as cortinas e esperei por um longo tempo, mas nada me aconteceu.

abri os olhos.

a cidade estava completamente deserta. sinais de destruição eram óbvios, e o silêncio era absurdo. tudo me dizia que eu certamente era a única que sobreviveu ao terror da noite anterior.

fechei as cortinas novamente, confirmei que minha porta estava trancada, desliguei a televisão e me deitei no sofá outra vez.

nada voltou ao normal.

april 19, 2022

“bruxa do mangue is lynn, and lynn is bruxa do mangue”

“you can't seem to ever relax”, joan says. “you hold yourself like you must be always ready.”

“that's because i must.” she looks confused after my answer.

“ready for what?”

i shake my head. “i've no idea. i just know i must be ready.”

she clearly thinks i'm crazy. personally, in her place, i'd think the same.


“the radars can't reach that far”, jegerk says. “beyond the three galaxies, we can't find anything. she's as likely to be on galaxy four as she is to be on the other side of the universe.”

elyad looks completely broken. she doesn't say a word. i look from her to jegerk and i ask him; “so what can we do?”

jegerk seems unable to speak. eylad bursts into tears as i comfort her. “all we can do...” he finally manages to say, “all we can do is hope that she's safe, wherever she might be.”


“when did you move here?”

“would you believe me if i said i've no idea?” and before she can voice her confusion, i continue: “i've been moving nonstop for ages. i'm always trying to find a place i can enjoy life, but everywhere i go, i feel like i'm not welcome. everywhere i go, people want to hurt me.”

she's silent. even without telling her all the details of my case, she seems to relate to what i said.

as we watch the sunrise, i ask her, “do you think there's some kind of heaven for misfits like us?”

“i don't know”, she answers. “but if there is, and if i had found it, then i'd be there right now.”

“so would i.”

we remain silent as we watch the sky. she doesn't know that i already ran away from heaven once.


the day comes to an end. elyad has to be medicated in order to sleep. as for myself, i stay behind watching the sky. somewhere, beyond our knowledge, elyad's daughter stays. dead? alive? i don't know.

possibly, none of us will ever know.

wherever she is, whatever drove her to run away... however the hell she ran away... i can't help but envy her. dead or alive, i know she's better off than all of us here.


joan has left. i sit alone on the roof of this old building.

the city is deserted. beyond us, i never see anyone else. the entire world feels deserted, as a matter of fact. but i don't wanna venture beyond here.

somewhere, beyond the clouds above my head, my hell awaits me.

somewhere, beyond the limits of the ghost town, my heaven no longer exists.

and it's my fault.

september 06, 2025

“bruxa do mangue is lynn, and lynn is bruxa do mangue”

“não tem ninguém aqui”, ecoa a voz em minha cabeça. eu sei que ele se foi pra valer dessa vez. mas eu quero manter a ilusão. eu quero acreditar que ele vai entrar por aquela porta. que eu vou encontrá-lo aqui, novamente.

“não tem ninguém aqui”, ecoa a voz em meus ossos. as lágrimas não se acanham. a dor não diminui. mas eu persisto.

“não tem ninguém aqui”, ecoa a voz nas paredes. eu sei que ela mente. e mesmo que não minta, o que me importa, afinal? eu não quero acreditar nela. eu prefiro acreditar em minhas ilusões.

“não tem ninguém aqui”, ecoa a voz no meu corpo.

“não tem ninguém aqui”, ecoa a voz em meu coração.

“não tem ninguém aqui.”

april 04, 2022

“bruxa do mangue is lynn, and lynn is bruxa do mangue”

as águas escuras do oceano me envolvem inteira. o calor dentro de meu corpo foge; minha pele se torna gélida como o oceano.

eu não me desespero. eu não respiro. eu não morro.

os peixes nadam ao meu redor. eles encaram, curiosos, meu corpo nu, e um a um, arrancam pedaços de minha carne.

eu não me desespero. eu não respiro. eu não morro.

meus olhos se tornam inúteis – tão inúteis quanto eu mesma. eles não voltarão a ver nada. a água congelante me afaga de alguma forma.

eu não me desespero. eu não respiro. eu não morro.

meus braços se abrem. meu corpo continua afundando. nas gélidas águas, meu sangue se confunde com outros elementos. estou só.

eu não me desespero. eu não respiro. eu não morro.

eu sou, enfim, infinita.

may 21, 2021

“bruxa do mangue is lynn, and lynn is bruxa do mangue”

i dreamt once i could fly i saw all sorts of things in the sky i heard the rainstorms brewing above my head i heard the gods' heartbeats around myself through green valleys i passed and there were animals like i saw nowhere and they looked at me like i was strong and i looked at them like we were one

i flew across the seas and all the whales sang to me as i gave them a part of my love as we and the seagulls reshaped the world through dark forests i went and among the trees; among life so ancient i met a lost part of myself who taught me what i didn't learn in my nest

and we flew together in the night and we learned again what's it like to be alive

the moonlight on the purple sky kissed my skin softly as i kept flight and the sharp cold wind around me was realer than if i was awake, or in a dream atop a mountain, i met my young self and she laughed and played like i never dared and as i spoke of my fear, she laughed she held my hand, and a lesson she shared;

“golden wings can't ever be heavy fly; don't forbid your dreams; that's what's truly scary”

she showed me ancient ruins; we walked through and we stopped to rest there for a year or two and the snow made me feel alive again and the small plants were our old friends as i watched kid me treat the trees a comforting sadness consumed me remembering when i did that back then missing my best, old friend

and then there he was; smiling at us and two kids looked, respectfully, up and we healed the plants that needed to and jokes we cracked in this place that was, to me, new and as my time to fly came again i bid farewell to myself, to my friend and their proud looks meant so much to me and my open wings took me somewhere i'd never seen

and in the open cold skies, i was not alone above all, i was above no one

as i landed on a small island waiting for me was no old friend nor an old version or lost part of me it was my future that i could see and she was kinder than i to myself and as i told her all, she said “well, your journey this night comes to an end” and she hugged me like an old friend

and around us, everyone and everything i had met in this one dream appeared to wish me a safe return home to remind me i'd never be alone

and as they faded again into the air my future lovingly kissed my forehead and in the early morning, i opened my eyes again and in the cold air of early morning rain i knew i was alive i knew it was my time and joy overtook me

and it was as beautiful as my dream.

may 21 2021

“bruxa do mangue is lynn, and lynn is bruxa do mangue”